Sobe para oito o número de mortes em repressão policial na Bolívia

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LA PAZ – Confrontos entre forças de segurança e produtores de coca bolivianos leais ao ex-presidente
Evo Morales
deixaram, pelo menos,
oito mortos
e mais de
100 feridos
na noite de sexta-feira, disse o ouvidor regional à agência de notícias Reuters, neste sábado.

A Comissão Interamericana de Direitos Humanos (CIDH) condenou em comunicado o “uso desproporcional da força policial e militar”, confirmando cinco mortes e apontando que havia um número indeterminado de feridos. A CIDH acrescentou que “as armas de fogo devem ser excluídas dos dispositivos utilizados para controlar os protestos sociais”.

A mortes foram registradas nas cidades de Sacaba e Cochabamba, onde produtores de folha de coca protestam contra a saída de Evo Morales da presidência.

O ouvidor regional de Cochabamba, Nelson Cox, disse que os registros hospitalares na região mostram que a “grande maioria” das mortes e ferimentos de sexta-feira foi causada por disparos de arma de fogo. Ele chamou a reação das forças de segurança da região de “ato de repressão”.

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– Estamos trabalhando com a ouvidoria nacional para realizar autópsias para determinar a causa da morte e buscar justiça para essas vítimas – afirmou Cox em entrevista na manhã de sábado.

Os apoiadores de Morales continuam agindo, bloqueando as principais vias, cortando oleodutos e lançando protestos em massa nas ruas de La Paz, El Alto e nas regiões de cultivo de coca há muito tempo leais a ele.

Embora a capital La Paz estivesse calma no sábado de manhã, os bloqueios nas rodovias provocaram pânico nas ruas, com muitos correndo para acumular mantimentos, já que os suprimentos estavam diminuindo e os preços subiram.

A polícia de choque reprime manifestantes pró-Morales em Cochabamba, onde cinco cocaleiros foram mortos Foto: STR / AFP

 

O ex-presidente Evo Morales, que está asilado no México, pediu, pelo Twitter, “às Forças Armadas e à polícia que parem o massacre”. “O uniforme das instituições da pátria não podem ser manchadas com o sangue do nosso povo”, escreveu o ex-presidente na rede social.

O plantio de folha de coca, usada para combater os efeitos da altitude, é legal na Bolívia, em áreas e quantidades determinadas pelo Estado. Cochabamba é  o berço político de Morales, que liderava o sindicato dos cocaleiros da região.

Com os último óbitos, sobe para ao menos 19 o número de mortos nos protestos que começaram após a vitória de Morales nas eleições de 20 de outubro — liderados primeiro pelos opositores, que denunciavam fraude no pleito, e depois por grupos pró-Morales, que renunciou no último domingo depois de enfrentar um motim na polícia e receber um ultimato dos militares.

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Nas três primeiras semanas de protestos, as manifestações eram organizadas por opositores de Morales. Desde domingo, porém, após a renúncia, são os simpatizantes do ex-presidente que saem às ruas e enfrentam a polícia, reforçada pelos militares.

Nesta sexta, um grupo de simpatizantes de Morales veio de El Alto (cidade próxima) para La Paz para uma manifestação perto da sede do governo), como nos dois dias anteriores.

Embora o dia tenha começado calmo, a tensão aumentou. Com gritos e fogos de artifício, os manifestantes denunciaram um “golpe de estado” contra Morales e declaravam como ilegítimo o governo de Áñez, perto Palácio Quemado, sede do Executivo, protegido por barricadas e militares.

Alerta na ONU

A Alta Comissária de Direitos Humanos da ONU, Michelle Bachelet, denunciou neste sábado “o uso desnecessário e desproporcional da força pela polícia e pelo Exército”, que pode levar a situação na Bolívia a “sair do controle”.

Bachelet destacou que 14 pessoas morreram nos seis dias seguintes ao exílio do ex-presidente Evo Morales no México e lamentou que as mortes parecem ser resultado do “uso desnecessário e desproporcional da força”.

“Condeno essas mortes. Trata-se de um desenvolvimento extremamente perigoso, pois longe de apaziguar a violência, é possível que a agrave”, acrescentou.

Polícia tenta destruir barricada em Sacaba Foto: DANILO BALDERRAMA / REUTERS

 

“Realmente me preocupa que a situação na Bolívia possa sair do controle se as autoridades não administrarem cuidadosamente, de acordo com as normas e padrões internacionais para o uso da força, e com um respeito pleno aos direitos humanos”, declarou a Alta Comissária.

Ela acrescentou que “o país está dividido e pessoas dos diversos setores do espectro político se encontram indignadas. Em uma situação como esta, as ações repressivas por parte das autoridades simplesmente avivaram mais essa ira e podem colocar em risco qualquer caminho de diálogo possível”.

A Alta Comissária pediu dados sobre o número de presos, feridos e mortos durante os protestos e solicitou “investigações rápidas, imparciais, transparentes e completas, para garantir uma prestação de contas total”, indica o comunicado.

Além disso, pediu para as autoridades bolivianas deixarem de usar as forças militares em operações de ordem pública, mesmo durante protestos.

Pedido de paz                        

A União Europeia (UE) pediu nesta sexta às “autoridades de transição” na Bolívia para “garantir paz e segurança” no país e realizar uma “eleição rápida” após a renúncia de Morales.

– O objetivo imediato das autoridades de transição deve ser garantir a paz e a segurança no país e levá-lo a eleições rápidas – disse a chefe da diplomacia europeia, Federica Mogherini.

Presidente interina autoproclamada da Bolívia, Jeanine Áñez, durante entrevista coletiva em La Paz Foto: RONALDO SCHEMIDT / AFP

 

Em sua declaração, em nome dos 28 países da UE, Mogherini afirma que esse novo pleito deve permitir que o povo “se expresse livremente” e convida a todos os partidos a trabalhar “pela reconciliação”.

Um enviado pessoal do secretário-geral da ONU, António Guterres, se somará á negociação entre o governo provisório bolivariano e apoiadores do ex-presidente Evo Morales para a pacificação do país.

Jean Arnault, que tinha previsto desembarcar nesta sexta em La Paz, “vai se incorporar” às gestões “nas próximas horas”, disse a jornalistas o representante local da UE, o espanhol León de la Torre.

 

Fonte: https://oglobo.globo.com/mundo/sobe-para-oito-numero-de-mortes-em-repressao-policial-na-bolivia-1-24084780

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